A filha de peixes com nome de estrela

Estrela Leminski e Téo Ruiz encerram o Festival Internacional de Poesia, com show na Torre Malakoff (Foto: Divulgação)

Estrela Leminski e Téo Ruiz encerram o Festival Internacional de Poesia, com show na Torre Malakoff (Foto: Divulgação)

por Leonardo Vila Nova

Filha de peixe, peixinho é? E filha de peixes?

Mas não foi no mar, e sim no céu que a poesia encontrou morada para batizar a filha legítima das letras e da música.  E, não por acaso, a genética foi dois pontos a favor da jovem moça, que “pintou” (como na popular gíria da época de seus pais) em 1981. Seu nome, como não poderia ser diferente, foi inspiração certeira da mãe e virou poema pelas mãos do pai. A curitibana Estrela Ruiz Leminski carrega uma responsabilidade que já vem de berço: dois dos mais importantes e representativos sobrenomes do universo literário brasileiro – ela é filha dos poetas Paulo Leminski e Alice Ruiz.

Inicialmente, toda a grandiosidade poética que trazia em si lhe acanhou diante do mundo que, besta, insiste em fazer comparações. A própria moça – que escrevia poemas desde a infância – pouco (ou quase nada) mostrava os seus escritos, acreditava que eles não estavam à altura da produção dos seus pais. Mas não teve jeito. Entre letras, pensamentos, haicais e o gosto por escrevinhar, Estrela respirou fundo e resolveu devolver – com juros e (in)correções – tudo o que recebeu de graça a vida inteira. Foi aí que as poesias engavetadas foram encorajadas a ganhar o mundo, e chegaram através do livro “Cupido: cuspido, escarrado”, de 2004. Daí, o mergulho foi frontal, de braços abertos e  sem medo algum.

Apesar de não contrariar a máxima que diz “quem sai aos seus, não degenera”, ela resolveu trilhar seu caminho particular e conferir identidade própria a seu fazer poético. Sobressaiu-se, então, a artista que lançou mão da música para vestir suas palavras, alimentadas por uma dose exata de sagacidade e uma curiosidade tamanha sobre o universo artístico com o qual se identificava. E ela foi além. Além de poetisa, Estrela também é compositora e pesquisadora, formada em Música pela Faculdade de Artes do Paraná, especializada em Música Popular Brasileira, e mestra em Musicologia pela Universidad de Valladolid (Espanha). Cavou ainda mais fundo, com suas próprias mãos e inspiração, uma mina de diamantes pronto para serem lapidados.

Essa é a bagagem que Estrela Leminski, junto ao parceiro musical e marido, Téo Ruiz, apresentará, neste domingo (26), no encerramento do FIP. A apresentação acontece às 19h30, na Torre Malakoff, e é baseada no mais recente trabalho da dupla, o CD (e posterior DVD) “São sons”. Nele, um trabalho multimídia, que congrega poesia, música e audiovisual, ou, como Estrela chama, “clipoemas“.  A parceria artística entre Estrela e Téo – apesar do sobrenome, eles não são parentes – data de cerca de 10 anos, e deu cria ao projeto Música de Ruiz. O apanhado de todo esse período vem rendendo uma obra consistente e original, que instiga e reverbera nos ouvidos e na alma, em que música e poesia são indissociáveis, falam e se reconhecem numa mesma língua.

Estrela e Téo ousam experimentar, se desvencilhar da zona de conforto e burlar as facilidades. “Eu tenho uma busca poética que dialoga com a arte de rua, com o realismo fantástico e com a fotografia. Do ponto de vista musical eu foco mais na experimentação musical também, inserindo em canções elementos estranhos  ao pop, mas que se misturam“, diz. A música que se entrelaça ao que ela escreve denota que, mesmo de forma muito natural, tudo o que range em seus versos está predisposto a atuar no limiar desses estranhamentos. “Algumas vezes acho minha poesia muito pop e a música muito cult, comparado ao que tem por aí. Faço isso por convicção. É uma contramão de muita coisa que acontece. Não me interessa fazer uma poesia ‘para poucos’ nem uma música que seja igual a tudo que já vem mastigado na rádio“, completa.

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Sobre Wellington de Melo

Escritor, professor & crítico da vida, não necessariamente nesta ordem.
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