Poemas de Sérgio Medeiros

Sérgio Medeiros nasceu em Bela Vista (MS) e reside atualmente em Florianópolis (SC), onde leciona literatura na UFSC. Poeta, contista e tradutor, publicou, entre outros livros, Figurantes (2011), Totens (2012) e O Choro da aranha etc. (2013). Traduziu, em colaboração com o estudioso inglês Gordon Brotherston, o poema maia-quiché Popol Vuh (2007), e organizou a antologia de mitos amazônicos Makunaíma e Jurupari (2002). Foi finalista do Prêmio Jabuti em 2008, 2010 e 2012. É atualmente o curador de poesia do Prêmio Portugal Telecom 2014. Lançará em breve uma antologia de contos infantojuvenis sob o título De duendes e folhas secas, livremente inspirados nos duendes da mitologia apapokuva-guarani, e O sonho do xamã, também texto infantojuvenil.

 

JERÔNIMO TSAWÉ (APARIÇÃO URBANA)

 

Enquanto os carros passam

Quase grudados

 

Um xavante

Na calçada

 

Apoiado num bastão

Como num totem

 

Olha tranquilamente

Para o lado de onde vem

Esse trânsito intenso

 

Como se mais nada almejasse

No abafado fim de tarde

 

CINZAS

 

As sementinhas cabeludas

Grises

Não cessam de passar de um lado para outro

 

Giram, aceleram, passam

Diante do senhor grisalho que

Sob o sol forte

Não para

 

AGONIA EM PRAÇA PÚBLICA (PRIMEIRA VERSÃO)

 

– uma palma verde enlouquece

no vento e parece querer chifrar

alguém ou puxar algo com a boca

ou curvando-se muito vomitar na

pracinha alguma coisa presa na sua

garganta pois há horas ela se

contorce ali em vão

 

– uma pesada calça jeans azul

toma sol largada num banco

sem se mexer sob o olhar de

uma gaivota pousada num poste

como que petrificada

o vento agita as ondas

da enseada e os galhos barulhentos

da pracinha

 

AGONIA EM PRAÇA PÚBLICA (SEGUNDA VERSÃO)

 

– deitada de costas na escadaria

da pracinha uma barata amanhece

coberta por formiguinhas como por

um lençol negro estreito que suas patas

inertes parecem puxar eternamente

sobre si mesma

 

A PREGUIÇA ALBINA

 

o saco de plástico sobe

vagaroso da grama

 

ultrapassa a serpentina do muro

faz sombra na calçada

 

gruda-se como uma preguiça

albina num galho seco

 

respira ali levemente

 

 

 

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