Poemas do novo livro de Cláudio Willer

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Cláudio Willer. Foto: Miriam Antonia

Claudio Willer é poeta, ensaísta e tradutor com vários livros publicados – poesia, ensaios, narrativa em prosa e traduções – além de participações em antologias e periódicos, no Brasil e no exterior. Doutor em Letras pela USP com a tese Um Obscuro Encanto: Gnose, gnosticismo e a poesia moderna (em livro: Civilização Brasileira, 2010). Pós-doutorado na USP com o tema “Religiões Estranhas”, Misticismo e Poesia. Coordenou dezenas de oficinas de criação e rodas de leitura (para escritores, agentes culturais, professores e estudantes), além de haver ministrado cursos, conferências e ciclos de palestras em instituições como a USP (curso de Letras), UFSCar (São Carlos – curso de Letras), Biblioteca Alceu Amoroso Lima (Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo), Instituto Moreira Salles, Escola Livre de Literatura da Secretaria em Santo André, Secretaria Municipal de Cultura, Lazer e Criança de Barueri, Clube Paulistano, Museu da Língua Portuguesa. Os poemas aqui publicados são do novo livro de Cláudio Willer, “A verdadeira história do século 20″

VISÃO DE NOVA YORK

O grande cavalo de lágrimas azuis desce do Oeste, lento como a névoa dos trigais. São hotéis de granito e espuma plástica em ruas que outrora foram violentadas, em manhãs mais suaves que a brisa dos grandes portos. Todos os túneis, todas as cavernas se encontram em um desfiladeiro de torreões metralhados. Todos os trilhos convergem para um só ponto, todos os subways apontam para uma só direção, e na vegetação dos grandes parques cresce o arbusto andrógino cujas raízes são de metal e seda. Os retângulos magnéticos geraram uma cidade onde cavalos à solta pisoteiam os gerânios dos patamares e a combustão espontânea anima os corpos dos amantes nas tardes de verão. Sementes germinarão violentamente em Bleeker Street, pois um pântano noturno sacode os alicerces dos grandes prédios embebidos em aguarrás. Gritos gelados soam em um corredor de pálpebras estreitas, e no parque onde pastam as lhamas emergem montes de cristal, despertando a última sentinela de uma paisagem de antenas partidas e ventiladores retorcidos.

NY, 07/1963

ANOTAÇÕES PARA UM APOCALIPSE

1
A Fera voltará com seu rosto de tranças de prata, nua sobre o mundo. A Fera voltará, metálica na convulsão das tempestades, musgosa como a noite dos vasos sanguíneos, fria como o pânico das areias menstruadas e a cegueira fixa contra um relógio antigo. Um sonho assírio, eis nossa dimensão. Um crânio amargo, velejando com a inconstância do sarcasmo em meio a emboscadas de insetos, um crânio azul e sulcado, à janela nos momentos de espera, um crânio negro e fixo, separado das mãos que o amparam por tubos e esmagando os brônquios da memória – assim se solidificarão as vertigens jogadas sobre a lama divina. O incesto é uma tempestade de luas gelatinosas e a mais bela aspiração dos membros dissociados. Em cada órbita uma avalanche de sinos férteis e de arcanjos terrificados pela sombra. O incesto é o sonho de uma matriz convulsiva e o mais profundo anseio das cigarras. Vaginas de cimento armado e urnas sangrentas, impassíveis contra um céu de veludo, guardiãs de oceanos impossíveis. Milhões de lâminas servem de ponte para os desejos obscuros – a mais afilada trará a nossa Verdade.
(1964)

A VERDADEIRA HISTÓRIA DO SÉCULO 20

contemplação: estrela no fundo do mar
você: véu de gaze azulada roçando, suave apelo
furacão: róseo
perfeição: parábola de perfumes
lâmina: a mente alucinada
gruta: você e os arcanos da natureza
matemática do sonho: esta nuvem
gelo: explosão de relâmpagos
essa solidez, essa presença: capim ao vento
rápidos, passando à frente: lavanda
e também sombra de árvore
montanha: inteiramente nossa
intimidade sorridente: no calor da tarde
Íris: o nome da flor, o seio ao sol

– quanta coisa você fez que eu visse

o acaso nos transportava e poderíamos ir a qualquer lugar
o mundo tinha janelas abertas
e tudo era primeira vez

gnose do redemoinho, foi o que soubemos

SÉRIES

… ele [o surrealismo] só serviria para justificar o estado de completa distração que almejamos alcançar neste mundo.
Breton

1

crescem os cabelos da noite, algo se quebra, a cidade se povoa de imagens e um novo poema começará a ser escrito – buracos no ar – estou aqui e ali – é o tempo do reflexo e o tempo tocado

[…]

9

escrito durante uma leitura de poesia:
eu, que durmo de olhos abertos
e falo com a eloqüência de um surrealista português
repetindo a mesma pergunta para recolher infinitas respostas
tomado pelo assombro de não ter mais sombra, apenas um luminoso ossóptico
o que as mãos fazem: frases são sibilinas, e o poema as acompanha
– eu, musculosamente hermético,
respiro pela sombra

10

e agora é assim:
extensão, plano à minha frente
mapa total

 

CINEMAS
[…]

3
TRINTA ANOS ESTA NOITE – FEU FOLLET

este é o mergulho na densidade do mundo
na dualidade da morte
este é o filme ao qual, há tanto tempo, eu devia um poema
o filme no qual foram ditas as palavras mais terríveis:
“não consigo tocar”
“de tanto querer ser amado, achei que amava”
“coragem não é dormir sobre o túmulo, é entrar nele”
o filme do qual só consigo falar em um modo solene, escrevendo com a voz embargada (só a emoção cria) para relatar que, toda vez, a janela do apartamento abria-se para um abismo
como é que pode? como isso é possível?
isto:
a vida resumida à opaca bala de 9 milímetros, um espelho, umas fotos coladas, algumas cartas, a maleta que é fechada, a inspiração que se extingue – e cada noite igual a todas as noites
nem vagar ao acaso serve para qualquer coisa, pois os edifícios são surdos
assim é a vida condensada
dos fantasmas sublimes
CINEMA: seu verdadeiro nome é confissão

4
PERSONA

os monólogos,
sempre
os monólogos:
são como sonhos que flutuam, o profundo os atrai,
eles repetem:
que a condição humana é um modo da indecisão
ou um pedido de desculpas por estar aí
“o sonho desesperançado de ser”: vertigens
e também aquela extrema elegância das coisas que eram realizadas na década de 1960
assim como a perfeita linguagem das mãos
e os rostos com a limpidez das piscinas ao sol
– isto é cinema tátil:
foi criado para ser percebido pelos sentidos secretos da imaginação
a tela produz palavras: fogo negro, insolação, ancestral, vertigem
– eu sou a tela
(agradeço ao diretor por inspirar-me o mais hermético dos meus poemas)

5
ÀS AVESSAS: ESTE FILME (AO QUAL ASSISTI) NÃO EXISTE

Estava escrito: “montagens visuais”
Enxerguei: “montanhas visuais”
Anotei o que faltava naquele outro poema.
Um personagem dizia que alegria de viver é igual ao alívio pelo adiamento da execução de uma pensa de morte
O vento conduzido pelas nuvens. Uma nova geração de poetas se expressa.
São lacunas (anotar tudo). Adicionar uma fatia de beleza à noite e ao amanhecer na praia.

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