Poemas de Matilde Campilho

Matilde Campilho. Foto: Tirelli Neto

Matilde Campilho. Foto: Tirelli Neto

Matilde Campilho é portuguesa. Nasceu em Lisboa, em 1982, onde estudou literatura e história da arte. No ano de 2010 foi morar no Rio de Janeiro, onde ficou por três anos. Hoje vive de novo em Portugal, mas suas visitas ao Brasil são recorrentes. Matilde publicou poemas em várias revistas online (como Modo de Usar & Co. e Cais), e também nos jornais O Globo e A Folha de São Paulo. Trabalha com poesia vocal em vídeo. Seu primeiro livro será publicado nesse mês de maio, em Portugal.

PRÍNCIPE NO ROSEIRAL

Escute lá
isto é um poema
não fala de amor
não fala de cachecóis
azuis sobre os ombros
do cantor que suspende
os calcanhares
na berma do rochedo
Não fala do rolex
nem da bandeirola
da federação uruguaia
de esgrima
Não fala do lago drenado
na floresta americana
Não diz nada sobre
a confeitaria fedorenta
que recebe os notívagos
para o café da manhã
quando o dia já virou
Isto é um poema
não fala de comoções
na missa das sete
nem fala da percentagem
de mulheres que se espantam
com a imagem do marido
aparando a barba no ocaso
Não fala de tratores quebrados
na floresta americana
não fala da ideia de norte
na cidade dos revolucionários
Não fala de choro
não fala de virgens confusas
não fala de publicitários
de cotovelos gastos
Nem de manadas de cervos
Escute só
isto é um poema
não vai alinhar conceitos
do tipo liberdade igualdade e fé
Não vai ajeitar o cabelo
da menina que trabalha
com afinco na caixa registadora
do supermercado
Não vai melhorar
Não vai melhorar
isto é um poema
escute só
não fala de amor
não fala de santos
não fala de Deus
e nem fala do lavrador
que dedicou 38 anos
a descobrir uma visão
quase mística
do homem que canta
e atravessa
a estrada nacional 117
para chegar a casa
ou a algum lugar
próximo de casa.

 

EXPLICAÇÃO DO SOPRO

Século XXI. Certos homens se fecham em quartos de hotel porque nos lugares anónimos é muito possível ficar encostado numa parede branca vendo a água correr no chão do chuveiro. Dois rapazinhos pegam as bicicletas e pedalam 420 quilômetros até achar a costa. Ao alcançá-la, tiram suas roupas e não mergulham: só encostam a zona lombar na areia e repetem até ao infinito a ladainha da tabuada do sete. Um bombeiro termina seu turno de vinte e quatro horas e entra no boteco junto à estátua de São Tarso. Pede um conjunto de sete pães de queijo e nos espaços entre cada um dos pães ele fica procurando por algum pedaço da túnica de Deus. O motorista do ônibus sabe perfeitamente que dentro da mala da senhora de rosto limpo tem uma caixa de jóias que contém uma caixa de medicamentos que contém uma caixa de anel que contém uma bala. O tocador de kalimba está muito consciente de que hoje o mantra nasce da mistura de um cântico de procissão com o latir do cachorro, e está consciente também de que todo o desenho acha sua acústica perfeita nas pequenas eremitas. Aquele que pinta a natureza, o ladrão de ossos, sabe que deve empreender seu trabalho em posição horizontal, de corpo muito junto ao chão. E se por acaso o observarmos no processo por mais de oito minutos, podemos reparar que sua caixa torácica constantemente toca a tela, sempre na mesma cadência. Porque ele, herdeiro de todos os impressores e selvagens, sabe que só tem uma forma de desenhar as flores: na terra. A moça de vinte e sete anos ainda está sentada ao toucador, de frente para o próprio rosto, absolutamente indecisa sobre qual dos objetos escolher. Entre o baton alaranjado, a carabina calibre 12, o pó de arroz e o crucifixo em miniature, vai uma distância de dois passos a galope.

 

PEDRA EXPLODIDA NA MÃO DO MONGE

Penso em astronautas
não penso em árvores chinesas
penso na contagem dos cabelos
não penso em punhais
disfarçados de arma desportiva
Penso em camisas vermelhas
em minha camisa vermelha
com um pequeno buraco
na zona lombar
Penso no êxodo
dos vendedores de picolé
nas migrações pendulares
penso em garrafas vazias
penso em tanques de guerra
penso em jabuticaba & acarajé
Penso no rosto e nos braços
da cantora de Santo Amaro
penso em pipas e em meninos
soltando pipas.

 

ANÚNCIO

Falemos do boi à espreita no vértice da mesa da cozinha, nem tudo o que mexe é bicho, falemos de transa no discurso de Gabriel e ainda de como foram brilhantes suas enormes asas brancas. Respeitemos o fato de algumas penas dessas asas terem caído naquela hora e de estarem ainda planando se espalhando pelo mundo, fazendo ad eternum o percurso ininterrupto entre Jaipur e Nashville. Falemos do recado talhado a vermelho na bancada da cozinha, falemos do afogamento de Pedro no dia de todos os santos quando nevou demais. Falemos da invenção arborizada de Cage e da forma estúpida como Joaquim dirigia na cidade para encontrar sua mulher, falemos do estado de desgaste da caixa de marcha do automóvel de Joaquim, dos estofos queimados pelo sol e pelas mãos de Joaquim, falemos do cabelo queimado da mulher de Joaquim. Falemos também do movimento físico dessa mulher não amando ninguém para além de seu reflexo no espelho. Falemos do piso escorregadio do Corso Independenza em dias de outono mais ou menos, falemos nos níveis de contaminação provenientes de um hino tocado no banheiro do restaurante, falemos da gota que em compasso cai do frasco de soro para dentro de uma veia previamente furada. Falemos do boi à espreita na cara de Pedro, João e Joaquim e falemos da confissão que o padre não ouve porque está concentradíssimo na circularidade estranha do botão de sua batina.

DIA DEZ

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