Poemas de Delmo Montenegro

Delmo Montenegro. Divulgação

Delmo Montenegro. Divulgação

Delmo Montenegro (Recife-PE, 1974) é poeta, ensaísta e tradutor. Autor de Os Jogadores de Cartas (2003) e Ciao Cadáver (2005). Organizou, em parceria com o poeta Pietro Wagner, os dois volumes da antologia Invenção Recife (2004), projeto que deflagrou o mapeamento da nova cena poética de Pernambuco em destaque na última década. Foi um dos idealizadores, em conjunto com os escritores Fabiano Calixto, Marcelino Freire, Micheliny Verunschk e Raimundo Carreiro, da revista de literatura Entretanto (2007).

Seu mais recente livro – Recife, No Hay – foi um dos vencedores da primeira edição do Prêmio Pernambuco de Literatura (2013).

 

A tartaruga negra

 

em Dujian-gyan

na província de Sichuan

 

um menino

preso sob as ferragens

terá as pernas

amputadas

 

para que os bombeiros

possam fazer o resgate

 

enquanto enfermeiros lhe cercam

 

o sheishuku explode

de suas pernas:

 

Gui Xian — a tartaruga

Baihu — o tigre

Quinglong — o dragão

Zhuque

 

— a fênix

 

O Livro Ruim

 

pior para sair

— pior para ejetar —

 

 

o livro ruim,

permanece

 

sempre à sombra

— do próximo passo da leitura —

Deus Vírgula

 

 

 

 

de novo — o corvo

 

 

 

 

 

 

 

Viaduto Santa Ifigênia

 

último jato de amor

sobre

 

a

 

flor morta

 

 

teus dentes explodidos de crack

 

 

querem me dizer

mas não dizem

 

 

teus poemas explodidos de crack

 

 

querem me dizer

mas não dizem

 

 

poesia feminina

 

— eu vim te seduzir esta noite —

 

 

não, eu não sou nada disso

— isto é apenas texto —

poesia feminina —

o querer você aqui

é

 

 

 

apenas

máquina —

movimento involuntário

— certa forma

de

 

 

 

 

 

bruxismo

— você soca paredes

pelo filho perdido —

o sexo está cada vez pior

não importa o que se faça

cinco dedos

não são o bastante?

para acertar o

gosto da comida

— do maldito bife —

steaking heart?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

não me interessa saber

onde vão caber seus livros

 

— essa coisa infantil e tola —

essa acumulação machista

porta-tudo, bric-à-brac,

buraco negro — o que

é vc — acumulando tudo —

lixo cósmico

 

isto designa inteligência?

marca território?

a pissing territory —

a grizzly bear?

 

o que esta cozinha

ainda tem de

expelir —

halitoses não

nascem aqui — tudo

ainda é branco

demais —

 

— limpo demais —

— escorregadio demais —

nada gravita aqui

nem a

nem j

nem a fatídica senhora x do apartamento 302

— desenho infantil na TV —

um tiro atravessa o

meu rosto — Woody

Woodpecker

Girl — o grande O

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ouvindo Devendra Banhart

‘Smokey Rolls Down Thunder Canyon’ — eu quero me

tornar tropicalista

para

 

você

 

 

— quero me tornar

 

sensualista —

sulista —

— I wanna be your Pocahontas —

I wanna be your

Rodrigo Amarante —

 

 

feminina por você —

 

like

Babylon

 

 

 

 

os dinossauros

 

poetas são como

dinossauros

 

todos vão ser extintos

 

 

de uma hora

pra outra, todos

 

 

 

 

 

sem exceção

 

 

 

 

 

 

 

 

guarde o seu lote

 

na cratera

de

 

 

 

 

 

Chicxulub

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

nos encontraremos todos

 

no big O

 

 

 

 

 

 

 

 

 

———————————— de volta

para

a

Grande

Mãe

 

 

 

A

 

Batistina

 

 

vomitando

 

 

———————————— condritos carbonáceos

 

 

relembrando

de quando,

éramos

 

 

 

 

grandes

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Adeus

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Rockers

 

sim,

eu aprendi

a fazer negócios com o Livro

e

 

isso

 

sim,

 

pulveriza

poetas

 

ó

nervos fracos

 

 

é preciso estofo para lidar com toda essa coisa elétrica

: plugar

a guitarra

 

 

disparar o pedal Inferno

 

 

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