Poemas de Joël Bastard

Joël Bastard. Foto: Michel Durigneux

Joël Bastard. Foto: Michel Durigneux

Joël Bastard nasceu em 1955 em Versalhes. Poeta, romancista e ator, organizou vários livros de artista e colaborou com músicos em performances artísticas. Ele escreve desde adolescente e, em 2000, decide consagrar-se à escrita em tempo integral. Desde então, tem tido seus livros mais notórios publicados na prestigiada editora Gallimard: Se dessine déjà (Já se vai traçando, 2003), Le sentiment du lièvre (O sentimento da lebre, 2005), Casaluna (2007), Manière (Trejeito, 2009) – infelizmente, nenhum traduzido em língua portuguesa. Quando não está viajando, vive em uma fazenda isolada nos Montes Jura – sendo esta sobretudo uma escolha estética e temática, pois sua poética é uma entrega conteudística e formal às tensões e aos ritmos de paisagens pouco ou por ninguém habitadas. Aqui o homem e o poeta só emite sua voz pelo timbre da natureza que lhe circunda. E certamente, a natureza de Bastard pertence a um mundo selvagem com pinheiros colossais e licantropos à espreita.

Tradução: Everardo Norões e Márcio Oliveira

 

NESTA FRASE SEMPRE RECOMEÇADA

1

As eufórbias nos alumiam e, os olhos

arregalados para todos os lados, olham

o país recolhendo sua luz.

 

A singular confiança do caracol. Seu corpo

Inteiramente devotado à terra.

 

2

Plantas e plantas e eu estou aqui. O tempo

ocupa a mínima flor. Mesmo o

cardo intocável que parece nascido seco.

 

A urtiga real. É verdade, a goela aberta, um pouco vulgar. É que ela quer viver.

 

3

De manhã atravessei o vau. Meus pés

brancos na água como os de uma criança.

Acima, o reflexo de minha idade fluía com o rio.

 

Gostamos de ver o oxigênio se expressar no

riacho. Fazer seu alvo. Nossos olhos respiram.

 

4

Um prado desgostoso de chuva se espalha e depois vai encostar-se à sebe. Essa bruma mais densa.

 

Uma pequena lesma, cinza-marrom, avança

brilhando sobre o parapeito da ponte. Pode-se ver, na transparência, seu estomâgo

deslisar sobre a pedra como uma carga preciosa.

 

As rochas se desmoronam, desfolham-se

nelas mesmas para não serem lidas.

 

5

Uma planície toda luz que nada pede.

 

Caminho ao passo do lavrador nessa frase

sempre recomeçada.

 

6

A vista me deixa a cada passo. Ela se vai

a outros olhos.

 

Uma pausa deslumbra nas ervas sem importância.

7

As vespas remontam o vento e as flores evoladas das acácias a alguma distância das árvores curvadas.

 

Em pé, na transpiração terrestre, espero

minha vez para me elevar e recair

em pequenas gotas.

 

De noite, os molhos de palha finalmente se escapam de suas sombras.

 

8

De noite, eu vou até ela. Aquela que se vai

sempre. E o que olhamos nesta água

sem rosto a não ser a cabeleira incessante,

infinita do mar ? Esperando o impossível,

que ela se erga e se volte até nós!

 

De noite, vou até ela, a inesperada. E me resfrio com uma outra, a noite que vem.

 

Os femininos marcam encontro sobre a ponte. A noite está próxima.  Os bancos do rio uivam uma última vez. Breve não restará

senão o eco dos seixos e esta longa cabeleira no negror que agora banha o mar.

 

9

Num gota a gota sonoro, o sapo subindo uma escada na noite. Sua doçura, sua lentidão. Ele conduz as estrelas para além dos altos muros.

 

Livre Raku com Sylvie Gravellard,

1 exemplar, 2008

 

 

BASTAR-LHE-IA UM ALENTO

 

1

Após as águas geladas, a terra e seus gramados, seus tapetes, carregados de nuvens pesadas. O chão se levanta entre as árvores. Até o espaço parece liberto.

 

O prado transparece no fundo do bosque. De um verde opalescente. Tal uma fumaça.

 

2

Os carvalhos de pequeno porte sussurram

à  orla dos grandes troncos cegos e despencam  na encosta gesticulando como meninos na saída de uma escola.

 

Depois, uma manhã, o país se abre como uma mão no céu. E nos sentimos transportados.

 

3

Um pequeno regato de água clara se insinua

nos limos. Livre do tanque que o exauria. Desse abcesso de água sombria e pesada.

 

De monte em monte, caminhando em cima, de longe em longe. Tentar passar por debaixo esses moluscos gigantes. Esgueirar-me entre a realidade e a ficção. Tentar sentir suas cremosas sucções. Provar seus longos beijos com a terra.

 

4

Carregaremos o guizo do esquecimento. E o deixaremos que tilinte  em nosso pescoço para atravessar a floresta e seu ar transverberado.

 

Um  maço de neve acaçapado junto à fachada de uma casa, como temeroso do degelo.

 

5

A aceleração estúpida de uma galinha no prado sobre nada mais além de seus pés.

 

Falta uma sandália ao espantalho deitado sobre os ramos cortados. Sua mulher, a nuca quebrada, perdeu seu chapéu. A palha ilumina suas articulações. Isso não é um pé mas uma tábua de um amarelo nu. As  lagartas acompanham todos dois de um prado a outro.

 

O grito por estar lá, preso no bosque claro de um portal azul  turquesa, entre aqui e o galinheiro buliçoso.

 

6

As sacadas na noite dão um ar diamantado às moradas pobres.

 

Sobre os montes, os caminhos se elevam das casas como fumaças serpentinas atravessando a floresta.

 

7

Não restam senão os líquens estrelados luminescentes. Cepas arruinadas e cogumelos em cálice com seu lago interior a servir de lugar ao  apodrecimento luminoso.

 

Os ninhos em fogo, cometas imóveis no cimo da galharia.

 

Os pomares negros e algumas faíscas ferrugentas das maçãs vazias. O carbono escorre sobre os tetos gelados. Um  gotejamento sobre a soleira da porta como um homem se aproximando. Ninguém nos taludes da madrugada.

 

8

Ei-la, a ruina estripada. Suas presas ao vivo. Carne úmida. Carcaça de vaca deixada na chuva. Resíduos de tempestade. Feixes brancos. Perto de chifres plantados na terra uma porta deitada abrindo-se sobre os germes .  As triturações mudas.

 

Abaixo da encosta um cão late perto de uma casa nova.

 

9

Fora dos caminhos, a imobilidade nos surpreende e imagino que ela pode fazer assim no deserto. A imobilidade nos prende ao céu.

 

10

Ele deposita uma a uma suas lenhas diante de minha janela. Em seguida, ele as marca com um gesto florescente. Olha-me do alto de seu trator guincho. Parece dizer-me trabalha ainda, e que tuas palavras sejam tão robustas quanto as minhas.

 

Felizmente o faiscar das lascas perto das árvores deitadas à luz difusa da lamparina.

 

11

Às vezes, os pés contam os mortos, enquanto caminhamos para lugar nenhum.

 

A terra se desprende. Ela não pode mais  se reter. Em seguida, por baixo, recomeça. Solidifica-se. Preparando com gravidade a próxima ruptura.

 

12

As fibras rasgadas no ângulo das rachaduras. A floresta aguarda sua vez, fazendo círculo  em rebanho submisso.

 

Eles retornam das roçagens. Eles não falam. Suas palavras tornaram-se feixes de lenha na floresta.

 

13

A gente se descobre amando essa lama, essa marga. Como um corpo novo de mulher com longos capins derrubados no cinzento de uma poça.

 

14

Um catavento imóvel num campo nevado e a espera toma forma.

 

As bétulas são para elas próprias espelhos cegos.

 

O suspense do desconhecido entre duas aldeias como entre duas pedras. O passo.

 

15

A luz do poente desloca as árvores metade de um passo. Um dia inteiro para isso. Tomemos como exemplo para conhecer o avesso de nosso próprio cenário.

 

16

A mão sobre o ventre de uma árvore deitada. Lugar inacessível  se estivesse viva. Mas a árvore sabe e nos faz saber que veio juntar-se à própria sombra.

 

17

Aquelas duas macieiras, na clareira. Filmá-las. Pois, que atores poderiam interpretar melhor a luz ?

 

18

Um pássaro cai do alto, ao longo da árvore. No derradeiro instante se põe sobre as patas nas folhas mortas. De fato, ele voava.

 

Ele escreve longamente a árvore e seu pássaro diante de uma janela fechada. De fato, ele vivia.

 

19

O dia, no momento, acima das altas árvores. Daqui a pouco, ele se enfurnará como eu na floresta. Caminharemos juntos pela primeira vez.

 

20

Seguir o caminho da direita ou da esquerda. Ainda uma vez é o bicho que decide. Teria sido suficiente para ele um bafejo.

 

Com Koschmider, Collection Mémoires,

18 exemplares, 2010

 

—–

EN CETTE PHRASE TOUJOURS RECOMMENCÉE

 

 

1

 

Les euphorbes nous éclairent et, les yeux écarquillés de tous côtés, regardent le pays, recueillant sa lumière.

 

La confiance inouïe de l’escargot. Son corps entièrement voué à la terre.

 

2

 

Des plantes et des plantes que je suis là. Le temps occupe la moindre fleur. Même la cardère intouchable qui semble née sèche.

 

L’ortie royale. C’est vrai, la gueule ouverte, un peu vulgaire. C’est qu’elle veut vivre.

 

3

 

Ce matin, je l’ai traversée à gué. Mes pieds blancs dans l’eau comme ceux d’un enfant. Au-dessus, le reflet de mon âge filait avec la rivière.

 

Nous aimons voir l’oxygène s’exprimer dans la rivière. Faire son blanc. Nos yeux respirent.

 

 

4

 

Un pré chagriné de pluie s’étale puis va buter contre la haie. Ce brouillard plus dense.

 

Une limace petite, de couleur bise, fonce en brillant sur le parapet du pont. L’on peut voir dans la transparence, son estomac glisser sur la pierre comme un bagage précieux.

 

Les roches s’effondrent, s’effeuillent en elles-mêmes pour ne pas être lues.

 

5

 

Une plaine tout en lumière qui ne demande rien.

 

Je marche au pas du labour en cette phrase toujours recommencée.

 

6

 

La vue me quitte à chaque pas. Elle va dans d’autres yeux.

 

Une pause éblouie dans les herbes sans importance.

 

 

7

 

Les guêpes remontent le vent et les fleurs envolées de l’acacia à quelque distance des arbres courbés.

 

Debout, dans la transpiration terrestre, j’attends mon tour pour m’élever et retomber en fines gouttelettes.

 

Le soir, les bottes de paille s’échappent enfin de leurs ombres.

 

8

 

Le soir, je vais à elle. Celle qui s’en va toujours. Et que regarde-t-on en cette eau sans visage sinon la chevelure incessante, infinie à la mer ? Espérant l’impossible, qu’elle se soulève et se tourne vers nous !

 

Le soir, je vais à elle, l’inespérée. Et je prends froid avec une autre, la nuit qui vient.

 

Les féminins se donnent rendez-vous sur le pont. La nuit est proche. Les blancs de la rivière hurlent une dernière fois. Ne restera bientôt que l’écho des cailloux et cette longue chevelure dans le noir qui baigne déjà en mer.

 

 

9

 

En un goutte à goutte sonore, l’alyte gravissant l’escalier dans la nuit. Sa douceur, sa lenteur. Il conduit les étoiles par delà les hauts murs.

 

 

 

Livre Raku avec Sylvie Gravellard,

1 exemplaire, 2008

 

 

 

 

IL LUI AURA SUFFI D’UN APPEL D’AIR

 

 

1

 

Après les eaux glacées, la terre et ses pelouses, ses tapis, forcés de nuages lourds. Le sol entier se soulève entre les arbres. Même l’espace semble libéré.

 

Le pré transparaît au fond du bois. D’un vert opalescent. Telle une fumée.

 

2

 

Les chênes rouvres de petites tailles bruissent à la lisière des grands fûts aveugles et dévalent la pente en gesticulant comme feraient des enfants à la sortie d’une école.

 

Puis un matin, le pays s’ouvre comme une main dans le ciel. L’on est porté.

 

3

 

Un ruisselet d’eau claire sinue dans les limons. Débarrassé de l’étang qui l’épuisait. De cet abcès d’eau sombre et lourde.

 

De mont en mont, marchant dessus, de loin en loin. Tenter de passer dessous ces berniques géantes. De me glisser entre la réalité et la fiction. Tenter de sentir leurs crémeuses succions. D’éprouver leurs longs baisers d’avec la terre.

 

 

4

 

Porterons-nous le grelot d’oubli. Le laisserons- nous tinter à notre cou pour traverser la forêt et son air transverbéré.

 

Un paquet de neige blotti contre la façade d’une maison, comme apeuré par la fonte.

 

5

 

L’accélération stupide d’une poule dans le pré sur rien d’autre que ses pieds.

 

Il manque une sandale à l’épouvantail couché sur des branches coupées. Sa femme, la nuque brisée, a perdu son chapeau. De la paille illumine ses articulations. Ceci n’est pas un pied mais une planche d’un jaune nu. Les choux processionnaires les accompagnent tous deux, d’un pré à l’autre.

 

Le cri d’être là, enfermé dans le bois clair d’un portail bleu cyan, entre ici et la volaille affairée.

 

6

 

Les oriels dans la nuit donnent un air diamanté aux maisons pauvres.

 

Sur les monts, les routes s’élèvent des maisons comme des fumées serpentines traversant la forêt.

 

 

7

 

Ne restent que les lichens étoilés luminescents. Des souches ruinées et l’helvelle en calice avec son lac intérieur qui lui sert de pourrissoir lumineux.

 

Les nids en feu, comètes immobiles, à la cime des arbres brindillés.

 

Les vergers noirs et quelques éclairs rouillés de pommes vides. Du carbone glisse sur les toits gelés. Un dégoutte sur le perron comme un homme s’approche. Personne dans les glacis de l’aube.

 

8

 

La voici, la ruine éventrée. Son grès à vif. Chair humide. Carcasse de vache laissée à la pluie. Résidus d’orage. Poutraisons blanches. Près des cornes plantées en terre une porte couchée ouvrant sur les germes. Les triturations muettes.

 

En bas de la combe, un chien aboie près d’une maison neuve.

 

9

 

Hors des chemins, l’immobilité nous surprend comme j’imagine elle peut le faire dans le désert. L’immobilité nous attache au ciel.

 

 

10

 

Il dépose une à une ses grumes devant ma fenêtre. Ensuite il les marque d’un geste fluorescent. Me regarde du haut de son débusqueur. Semble me dire travaille encore, et que tes mots soient aussi robustes que les miens.

 

Heureusement l’éclat des copeaux près des arbres couchés pour une veilleuse clairsemée.

 

11

 

Parfois, les pieds comptent les morts, alors nous marchons nulle part.

 

La terre décroche. Elle n’en peut plus de se retenir. Ensuite, par en dessous, recommence. Se solidifie. Préparant avec gravité la prochaine rupture.

 

12

 

Les fibres déchirées sous l’angle des fendeuses. La forêt attend son tour, faisant cercle en un troupeau soumis.

 

Ils reviennent des affouages. Ils ne parlent pas. Leurs paroles sont restées en fagots dans la forêt.

 

 

13

 

On se prend à aimer cette boue, cette marne. Comme un corps nouveau de femme aux longues herbes renversées dans le gris d’une flaque.

 

14

 

Une éolienne immobile dans un champ enneigé et l’attente prend forme.

 

Les bouleaux pour eux-mêmes miroirs aveuglés.

 

Le suspens de l’inconnu entre deux villages comme entre deux pierres. Le pas.

 

15

 

La lumière du couchant déplace les arbres de la moitié d’un pas. Une journée pour cela. Prenons exemple pour connaître l’envers de notre propre décor.

 

16

 

La main sur le ventre d’un arbre couché. Lieu inaccessible de son vivant. Mais l’arbre le sait et nous le fait savoir qui vient de rejoindre son ombre.

 

 

17

 

Ces deux pommiers là-bas, dans l’éclaircie. Les filmer. Car, quels comédiens pourraient mieux interpréter la lumière ?

 

18

 

Un oiseau tombe de haut, le long de l’arbre. Au dernier instant se pose sur ses pattes dans les feuilles mortes. En fait il volait.

 

Il écrit longuement l’arbre et son oiseau devant une fenêtre fermée. En fait il vivait.

 

19

 

Le jour pour l’instant au-dessus des hauts arbres. D’ici peu, il s’enfoncera comme moi dans la forêt. Nous marcherons ensemble pour la première fois.

 

20

 

Prendre le chemin de droite ou celui de gauche. Encore une fois c’est la bête qui décide. Il lui aura suffi d’un appel d’air.

 

 

 

Avec Koschmider, Collection Mémoires,

18 exemplaires, 2010

 

 

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