Onde a poesia habita e reverbera

por Leonardo Vila Nova

Seja o som que da palavra emana. Seja a sua vibração e a sua comunicação com a alma. A poesia pode ser um portal de acesso a regiões mais profundas da nossa existência? Certamente, sim. E o xamanismo, prática mágica de comunhão entre o ser humano e o universo que o circunda, é onde essa possibilidade se torna mais viva e pujante. Onde o impalpável e o incorpóreo residem, lá habita a palavra. Na mesa “Poesia, xamanismo e transe”, que aconteceu nesta última sexta (23), na Torre Malakoff (Bairro do Recife), os poetas Cláudio Willer (SP) e josé juva (PE) conversaram sobre o assunto.

xamanismo

Cláudio Willer abordou as manifestações do xamanismo e a sua relação com a poesia como algo que já se fincou como tradição nas nossas formas de comunicação mais primitivas, mas que ultrapassam gerações, escolas, gêneros e até hoje reverberam. Para ele, tanto os poetas contemporâneos como os arcaicos já se debruçavam sobre a magia como maneira de expressão profunda da alma. Seja o mito de Orfeu, seja a Divina Comédia de Dante Alighieri ou poeta paulista Roberto Piva e outros criadores dos últimos tempos,  todos trazem em seus escritos manifestações exuberantes – ou até mais tímidas – do xamanismo. A introdução de diversos outros tipos de línguas na poesia é uma prova disso. “A poesia mais rebelde cria suas tradições e recupera tradições mais arcaicas, traz de volta aquilo que somos”, diz Willer, sobre a conexão que se estabelece entre o ser humano e o mundo através da palavra.

Já o poeta josé juva , cuja dissertação de mestrado se transformou em livro que aborda a poesia do Roberto Piva (“Deixe a visão chegar”), falou sobre a importância da palavra não só como elemento de significação, da semântica, mas como som, como ferramento de  vibração e energia, que é parte essencial para se conduzir ao transe xamânico. “O som da palavra na poesia é uma janela para esse mundo de fenômenos. É vivenciar o que mundo diz. Basta que você esteja atento e possibilitando essa outra freqüência do mundo que se manifesta”. Entre experiências com o peiote, com a ayauasca, ou outros facilitadores para as conexões com o mundo incorpóreo, segundo juva, a poesia, muitas vezes, “não é apenas o discurso do poeta sobre a natureza, mas a tentativa plena dessa comunhão, é por ela que se pode acessar regiões do consciente e do sub-consciente”.

O xamanismo, como diria Roberto Piva, é a “religião-poesia”. E o ato de escrever é, antes de tudo, uma conexão com outras dimensões que estão fora do nosso campo de visão mais comum, estreito. É onde a poesia habita e reverbera. Onde a comunhão é plena.

Poesia, alimento para a alma

a gente da palavra

Você tem fome de quê?

De arroz, de feijão… de vida, de poesia. Que tal aproveitar uns minutinhos de sua vida para reabastecer sua alma com o alimento dos mais profundos? De repente, na porta de casa, alguém que vem ofertar palavras, poemas, para adocicar o dia. Dentro da programação do FIP 2014, o A Gente da Palavra levou a poesia até onde pouco se sabe dela ou se vivencia. Nesta última sexta, a comunidade do Pilar, incrustada no Bairro do Recife, mudou um pouco do seu cotidiano e abriu os corações e mentes para ouvir, degustar.

André Monteiro (PE), Joy Carlu (PE) e Lenice Gomes (PE) percorreram as casas ao longo da comunidade. Entre donas de casas ocupadas com seus afazeres, crianças que brincavam, bate-papos sobre o dia a dia, um pouco de poesia fez a diferença. Distribuindo um tanto de inspiração que a lida do cotidiano embaça em nossas vistas, os poetas declamaram e emocionaram. É a prova de que a poesia é, sim, “sustança”, e das boas.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: