O legado da poesia

Por Michelle de Assunção

A frase do poeta, músico e cantador Adiel Luna pode dar uma dimensão mais exata do que foi o III Festival Internacional de Poesia (FIP), que terminou neste domingo, no Recife. “Quando o poeta está declamando e o público está em silêncio, isso também é poesia”. Ou seja, o FIP foi poesia pura. E percebeu, em seu terceiro ano de edição, que essa função de poesia que exerce é o motivo de continuar vivo, pulsante, com uma estrutura que atrai cada vez mais poetas do mundo todo e públicos diferentes. Pessoas de todas as gerações e interesses, e não apenas às que conhecem poesia ou que compram livros de poesia. Aliás, comprar não é um verbo apropriado para este tipo de evento. Justamente por esta razão, realizado pela Secretaria de Cultura de Pernambuco e Fundarpe, em parceria com a Prefeitura do Recife. “Se o estado não viabiliza, é difícil, pois não há apelo comercial aqui. Uma das coisas mais importantes é a troca de experiências, as pontes que acontecem depois, os poetas que se encontram para novos trabalhos”, avalia Wellington de Melo, Coordenador de Literatura da Secult-PE e do festival.

Cerca de 4 mil pessoas acompanharam, de 22 a 25 de maio, a programação do FIP 2014. Foto: Otávio de Souza/Secult-PE

Cerca de 4 mil pessoas acompanharam, de 22 a 25 de maio, a programação do FIP 2014. Foto: Otávio de Souza/Secult-PE

O FIP, segundo o poeta, ensaísta e tradutor Cláudio Willer, convidado da primeira noite do festival, colocou o Brasil no circuito internacional de poesia. Com um público estimado em mais de 4 mil pessoas, o FIP ocupou dois mercados públicos do Recife (Madalena e Boa Vista), com a Peleja Poética, um concurso de declamação de poesias que deu seu primeiro lugar à poetisa pernambucana Luna Vitrolira. Foi também a uma das comunidades mais carentes da cidade, o bairro do Pilar, com o projeto A Gente da Palavra, que reúne declamadores recitando poesias de porta em porta. O resultado é sempre surpreendente. “As pessoas, às vezes, querem poesia, outras nos mandam embora, dizem que não tem tempo pra isso, às vezes choram, outras declamam suas próprias poesias, ou vem nos falar sobre suas vidas, seus problemas e desamores”, conta o assessor José Jaime, que acompanhou todas as saídas dos poetas. Ele também aponta as oficinas como um momento importante de formação e troca de saberes. “Tivemos salas lotadas e produções interessantes. Um exemplo foram os haicais da oficina de Alice Ruiz, que depois serviram como o conteúdo da oficina de confecção de livros artesanais de Douglas Diegues (RJ)”, conta.

Oficina com Alice Ruiz foi destaque da grade de formação cultural do festival. Foto: Otávio de Souza/Secult-PE

Oficina com Alice Ruiz foi destaque da grade de formação cultural do festival. Foto: Otávio de Souza/Secult-PE

O FIP também promoveu exposições, como a de poemas visuais do francês Jacques Demarcq no Espaço Pasárgada, além de ter agregado a mostra Múltiplo Leminski, que já estava em cartaz na Torre Malakoff, no Bairro do Recife, principal endereço do FIP. Foi na Torre que aconteceram as conversas, as rodas de poesia e o projeto Jam Poéticas. As jams poéticas, aliás, foram outra necessária invenção do FIP para incitar ainda mais o universo da poesia, combinando sua expressão com a música experimental. Foram três projetos: Jam poética com Luna Vitrolira, Greg Marinho, Thiago Martins e Rodrigo Félix sobre a obra de Tereza Tenório; Jam Poética com o grupo Virgulados, Pierre Tenório e Ícaro Tenório musicando poesias autorais; e ainda a Poesia Incendiária Valvulada (P.I.VA.), uma jam poética sobre a poesia de Roberto Piva.

Os Valvulados em Jam Poética do FIP. Foto: Otávio de Souza/Secult-PE

Virgulados em Jam Poética do FIP. Foto: Otávio de Souza/Secult-PE

Centrado no tema do Sagrado, o encerramento do FIP comprovou a força desta temática, que norteou desde as conversas até o assunto tratado nas duas poesias vencedoras da peleja poética: a de Luna e a de Rildo de Deus, um poeta estreante e de grande talento, que ficou com o segundo lugar.

Luna Vitrolira, em primeiro lugar, e Rildo de Veras, com o segundo, foram os vencedores da Peleja Poética. Foto: Otávio de Souza/Secult-PE

Luna Vitrolira, em primeiro lugar, e Rildo de Veras, com o segundo, foram os vencedores da Peleja Poética. Foto: Otávio de Souza/Secult-PE

“Espaços como este funcionam como respiro, do que o Recife está vivendo hoje em termos de poesia. Vimos gente do interior e daqui se encontrando e, mesmo no momento das disputas, se encantando com o outro. Porque todos nós temos o nosso repertório, nossas referências, mas ter esse momento para trocar e escoar é muito necessário. Também percebi a evolução de alguns poetas que já acompanhava, num curto espaço de tempo”, diz o poeta, compositor, violeiro Adiel Luna, que esteve na plateia dos três dias de festival na Torre Malakoff.Para Wellington, agora é hora de começar a pensar na edição de 2015 do festival, já com um projeto mais imediato, que será a edição de uma revista anual de poesia, baseada na temática e discussões levantadas na edição que terminou.

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